sábado, 31 de julho de 2010

flores

O mistério das


rosas sem perfume


sullivan





Na festa do aniversário de 15 anos de uma amiga da família, a menina de 8 anos ficou fascinada pelas rosas vermelhas, enfeixadas num vaso imenso na beira da pista de dança do clube. Só as conhecia por fotografia, por filmes ou por ouvir falar. Não se conteve:



- Mãe, aquelas rosas são de verdade?



Sim, não faria sentido usar flores de plástico ou de pano numa festa de 15 anos.



- Mãe, posso tocar nas rosas?



Melhor não, pediu a mãe, lembrando que se todas as crianças presentes cedessem ao mesmo desejo, seria uma lástima para arranjo floral tão belo.



Depois que descobriu o “roseiral”, na meia-luz do salão, a menina ficou atenta para saber por que tantas rosas.



- Mãe, no final da festa, posso pegar uma rosa para mim?



No final da festa, claro que sim. A música de fita tocava baixo, acima do vozerio dos convidados que iam se acomodando nas cadeiras, dez por mesa. No palco do salão um telão repassava fotos da aniversariante. Em postes plantados na pista de dança, quatro telas de TV transmitiam as mesmas cenas para que, de qualquer lugar, os 300 convidados pudessem ver o álbum de fotos e as imagens ao vivo da festa.



As crianças corriam e dançavam sob a bola de espelhos no centro do salão. De tempos em tempos chegavam a uma mesa cheia de potes com pastilhas, confetis, jujubas, mariamoles, balas e pirulitos. Em outras mesas havia salgados e doces comuns, brigadeiro, camafeu, olho de sogra. Garçons corriam com bebidas.



De repente um locutor de voz rouca pediu atenção às últimas imagens da aniversariante, filmada como se posasse para um book de fotos. Ao apagar das luzes, subiu a música Odisséia no Espaço e a dona da festa apareceu no palco sob um facho de luz. Linda no seu vestido vermelho decotado, ombros nus, desceu à pista para dançar com o pai a valsa de Strauss.



O par mal deu algumas voltas com a filha no salão e as rosas, as rosas, as rosas começaram a entrar em cena, para alegria de quem nunca vira coisa igual. O primeiro a oferecer uma rosa à aniversariante, interrompendo a dança, foi o irmão dela. Enquanto o pai saía de cena, eles dançavam.



Em seguida, apresentaram-se os tios, os primos, os padrinhos, cada um trazendo na mão uma rosa, cujo toque mágico desfazia o par, formando outro e mais outro, até que a aniversariante ficou com a mão esquerda cheia de flores.



Quando a valsa acabou, todas as rosas voltaram para o vaso. A garotinha foi lá e pegou uma. Feliz da vida, cheirou-a e correu para a mesa dos pais.



- É rosa de verdade mesmo?!



Sim, era uma rosa graúda, de grandes pétalas vermelhas e haste forte. Uma rosa vegetal, criada em estufa. Rosa viajada. Durável. Botânica, mas quase plástica. A falta do perfume ancestral das rosáceas a tornava parecida com as camélias, as orquídeas, as violetas e todas as outras flores que não têm cheiro.



- Mas rosa não tem cheiro?



A rosa original sim, mas as rosas de estufa não.



- Por que?



Crianças de 8 anos com seus porquês merecem respostas honestas, ainda que alongadas, para que não se desiludam precocemente. Assim é que foi numa festa de 15 anos que esta menina começou a descobrir que as rosas de estufa, as rosas comerciais, as rosas industriais, as rosas artificiais não têm perfume porque as pessoas não dão às roseiras o tempo de produzir no ritmo da natureza. Aceleradas por adubos químicos, as rosas de festa são como os morangos de supermercado, que não têm gosto de morango. Assim também são outros alimentos vistosos mas sem gosto nem substâncias nutritivas – pelo contrário. Isso sem falar dos transgênicos, que rondam lavouras e invadem despensas. Por isso somos obrigados a dizer que rosas sem perfume não são rosas, são fraudes.



LEMBRETE DE OCASIÃO



A sustentabilidade do planeta exige que o ambiental preceda o econômico

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