SULLIVAN ( POSUIDO POR VALENTTINA )
MATRAGA 12, 1999
Em 28 de junho de 1969, o bar The Stonewall Inn, localizado no Greenwich Village, Nova
Iorque, foi invadido pela polícia, como era de rotina. Naquele dia, entretanto, houve luta, ao
invés da habitual atitude de submissão por parte dos gays e lésbicas. O protesto popular
decorrente desse confronto durou cinco dias e mudou, de forma definitiva, a atitude dessas
minorias perante a sociedade norte-americana. O incidente de Stonewall, ou como é conhecido
em inglês, the Stonewall riots, passou para a história como o início do movimento social
dessas minorias por seus direitos. Na literatura, sua marca também foi relevante, já que se
transformou no divisor da literatura norte-americana gay e lésbica.
Este artigo visa a abordar a produção ficcional post-Stonewall, ressaltando a contribuição da
literatura dessas minorias para discutir questões culturais contemporâneas. Três temas serão
tratados neste artigo: a família, a AIDS, e a monogamia, respectivamente, através dos contos
“The Cinderella Waltz” de Ann Beattie, e “The Times as It Knows Us” de Allen Barnett, e da
história em quadrinhos ”Serial Monogamy” de Alison Bechdel.
O primeiro conto a ser discutido é assinado por um nome que se destaca na produção ficcional
norte-americana contemporânea. Ann Beattie retrata em seus livros e contosii[ii] questões
culturais relativas à chamada baby-boom generation, tais como drogas, relações familiares, o
confllito cidade/campo, entre outras. Em “The Cinderella Waltz”, Beattie privilegia as relações
familiares conturbadas por um casamento desfeito não por uma outra mulher mas sim por um
gay. A ex-mulher é quem detém o foco narrativo, o que torna o conto interessante por tratar
da problemática gay vista pelo olhar de uma mulher heterossexual. Devo destacar aqui que
esse conto faz parte da antologia The Penguin Book of Gay Short Storiesiii[iii] editada por
David Leavitt, uma das vozes mais consagradas da literatura gay post-Stonewall. Para o editor
da antologia, o conceito de literatura gay não se restringe apenas a textos escritos por e para
mas, principalmente, sobre gays.
O conto de Beattie enfoca personagens da classe média norte-americana: Milo, o ex-marido é
arquiteto, a mulher faz ocasionalmente free lance em arte para revistas e Bradley, o amante,
trabalha em uma agência de propaganda. Assim como a narrativa revela, gradualmente,
acontecimentos envolvendo as personagens, a narradora/personagem também desvela,
lentamente, suas próprias emoções em relação ao abandono e posterior envolvimento com a
problemática gay. No entanto, a dificuldade de relacionamento não reside entre a ex-mulher e
o amante do marido mas sim entre ela e seu ex-marido. Um ano após a separação, ela
convida o casal same-sex oriented para entrar em sua casa em Connecticut, onde havia vivido
com o marido durante anos, enquanto esperam Louise, a filha de nove anos, chegar da casa
de uma amiga. Bradley é quem aceita o convite, acabando com o silêncio embaraçoso. A ex-
mulher e o amante se falam pelo telefone uma vez por semana, conseguindo manter uma
relação pessoal ainda que distante. Quando Bradley é despedido, ele vai ao encontro da ex-
mulher de seu amante para revelar suas próprias dificuldades em seu relacionamento gay,
aumentando a cumplicidade entre os dois. “ ... Não posso acreditar nisso. Um ano depois de
meu marido ter me deixado, estou sentada com seu amante - um homem, uma pessoa de
quem eu gosto muito - e tentando animá-lo porque ele está desempregado. ”iv[iv]
Torna-se óbvio para o leitor que as mesmas dificuldades e queixas da ex-mulher em relação a
Milo também são compartilhadas por Bradley. Pode-se concluir que a angústia de Milo com o
casamento permanece, mesmo assumindo sua identidade gay. Ele continua sendo uma pessoa
extremamente problemática, com dificuldades em compartilhar sua vida e emoções com outra
pessoa, independente do sexo. O último fim de semana retratado no conto reúne as quatro
personagens na cidade de Nova Iorque, no mesmo apartamento em que anos atrás a
narradora havia vivido com seu marido até Louise completar dois anos de idade. Nesse fim de
semana, as relações entre ex-mulher e amante assumem proporções mais íntimas que vão
coroar na revelação culminante em que Bradley confessa seu amor por Milo.
Nesse conto sobre relações familiares norte-americanas contemporâneas, a personagem mais
interessante não é, a meu ver, a ex-mulher por sua habilidade em lidar com uma questão
extremamente dolorosa para ela - a de ter sido abandonada por seu marido por outro homem.
O mérito, na minha opinião, recai sobre Louise, a filha do casal que costura esses dois mundos
- o gay e o heterossexual. Por sua causa, a mãe se vê obrigada a se relacionar não apenas
com o ex-marido mas também com Bradley. O acordo do casal de que a criança passaria os
fins de semana com o pai e seu amante força a ex-mulher a lidar com essa situação
embaraçosa. Entretanto, a criança de nove anos, assim como as crianças na vida real, acaba
ensinando a mãe a ultrapassar o preconceito e amar as pessoas como elas são.
Louise, ao contrário de Milo, é capaz de amar e demonstrar carinho. Ela se sente
completamente à vontade com a relação gay de seu pai; ela faz o papel de anfitriã no
apartamento de Nova Iorque. Além disso, ela gosta especialmente de Bradley; ela leva plantas
para ele e preocupa-se quando ele está resfriado. A narradora, entretanto, indaga: “Eu me
pergunto o quanto ela sabe”.v[v] Pergunta extremamente ingênua e protetora, por se tratar
de uma criança dos anos 90 que frequenta uma metrópole norte-americana. Quando Milo
revela, após o brinde de champagne, que finalmente tomou a decisão de ir morar em São
Francisco, Louise, de uma forma sincera e corajosa, faz a pergunta que vem angustiando
silenciosamente tanto sua mãe como Bradley: “O que é São Francisco, afinal de contas?”
Mudar-se para essa cidade significa para Milo, aparentemente, conseguir um melhor emprego,
já que o seu em Nova Iorque está “em risco”. Tomando uma atitude tipicamente norte-
americana, Milo não hesita em sacrificar sua família e sua relação pessoal por um bom
emprego. Não obstante, devido às queixas tanto de sua ex-mulher como de seu amante, o
leitor compreende que a mudança geográfica aponta para além do trabalho. São Francisco
torna-se emblemático da dificuldade de relacionamento, de amar pouco sua filha, sua ex-
mulher e seu parceiro.
O conto de Ann Beattie deu margem à discussão de relações familiares suscitadas pela
literatura gay. Este artigo também abre espaço para outra questão cultural contemporânea - a
inevitável abordagem da AIDS, tema da literatura gay post-Stonewall, principalmente nos anos
80. Allen Barnett morreu de AIDS cerca de um ano após a publicação, em 1990, da coleção de
contos The Body and Its Dangers. “Seu conto mais importante, ‘The Times as It Know Us’
contrapõe a descrição estereotipada de gays com AIDS por parte da mídia com o
comportamento mais complicado de moradores de uma casa de Fire Island durante um fim de
semana de crise de AIDS .” vi[vi]
Durante o verão sobretudo, Fire Island torna-se um reduto gay assim como Provincetown e
Key West. Clark, o narrador do conto mencionado, alugou uma casa nessa ilha perto de Nova
Iorque junto com um amigo, Perry. O ex-amante de Clark, Samuel, havia morrido no inverno
anterior. Ele era a ligação entre Clark e Perry que também tinham em comum morte,
sexualidade e doença, já que Horst, o amante de Perry, era um PWAvii[vii]. No fim de semana
enfocado pelo conto, outros amigos gays partilhavam da casa de verão.
A contraposição acima mencionada reside exatamente na visão deturpada sobre a AIDS
veiculada pelo New York Times e, no pólo oposto, a realidade vivenciada pelos amigos gays.
Segundo o ponto de vista de Clark, a forma como os homens homoeroticamente inclinados se
retratatam, nunca coincide com a do jornal. Ao fazer trabalho voluntário falando sobre a AIDS
em grupos comunitários, o narrador vinha colecionando artigos de jornal sobre a crise, desde
quando o Times noticiou anos atrás: “Cancer raro em 41 homossexuais”. Através de suas
leituras atentas, Clark observou que o jornal passou a usar o termo gay ao invés de
homossexual, com sua conotação clínica, ao mesmo tempo que adotou Ms. no lugar de Miss.
Uma constatação pertinente através da leitura de um artigo foi a da associação da infecção do
vírus HIV com a AIDS, que determinaria uma posterior mudança de linguagem no tratamento
dessa questão.
Os gays adotaram um novo procedimento na própria leitura do jornal. Primeiramente, eles
liam o obituário; depois, as palavras cruzadas. Como a palavra AIDS era omitida, o processo a
ser utilizado era o de dedução. Através da idade, estado civil e ocupação, eles conseguiam
descobrir as vítimas da epidemia. Outra informação valiosa era a agência funerária, porque
poucas prestavam serviço a portadores do vírus HIV. Além disso, a localização da igreja onde o
culto seria realizado ajudava, visto que eles eram familiarizados com o clero gay. Ademais,
palavras tais como “cancer”, “pneumonia”, e “menigite” faziam parte do sistema de
localização. Por que essa procura incessante, pode-se perguntar? Em primeiro lugar, porque
eles estavam tentando não apenas rastrear a extensão da epidemia mas também entender
melhor as manifestações da doença. Em segundo lugar, e mais pessoal, porque tratando-se de
doença infecciosa, eles próprios poderiam estar contaminados, uma vez que muitos dos
mortos tinham sido seus ex-amantes. A previsão para 1991 era bastante perturbadora - o
mesmo número de mortos somente nesse ano equivaleria ao total de soldados mortos no
Vietnã. Cumpre mencionar que muitas dessas vítimas seriam pessoas conhecidas e,
provavelmente, ex-amantes. Curiosamente, o advento das mortes trouxe Shakespeare de
volta, citado constantemente pelos assistentes sociais: “Dê palavras à dor”. Não obstante, o
narrador enfoca a dor de maneira diferente, sob uma ótica gay: “Encontre na dor o abandono
que você encontrava no amor; sofra da forma que você costumava trepar.”viii[viii]
Uma jornalista do Times publicou um artigo sobre a AIDS, após ter entrevistado um dos donos
da casa. Entretanto, Joe, amigo de Clark, criticou esse mesmo artigo: “Não gosto da forma
como ela insinua que a morte já se tornou tão rotineira para nós, nós não sentimos mais: Paul
morreu hoje. Oh, isso é horrível; o que tem pro jantar? Por que você não pôde dizer para ela
que nós estamos aprendendo a apaziguar a dor?”ix[ix] Perry, o entrevistado, também foi
responsabilizado por outros amigos pelo teor do artigo. Apesar das críticas, o dono da casa
apresenta uma visão bastante perspicaz: “... - e eu pensei que nós éramos a melhor casa na
ilha para ilustrar como a crise havia se tornado um estilo de vida.”x[x] Pode-se considerar essa
casa de Fire Island como representante de comunidades gays.
Indiscutivelmente, a AIDS trouxe um novo estilo de vida, estilo esse vivenciado pelos
moradores da casa. Por exemplo, Horst, o amante de Perry, acordava diariamente às quatro
horas da manhã para poder, em jejum, tomar um suco de laranja com AL721, uma droga
inventada em Israel e usada no tratamento da AIDS. Por causa do barulho do liquidificador, os
outros moradores também acordavam. Esse episódio denota a alteração na rotina de vida.
Além do uso constante de camisinha, dos cuidados e limites impostos ao ato sexual, e da
própria abstinência sexual no caso dos infectados, a AIDS trouxe, acima de tudo, um
questionamento sobre a sexualidade. Apesar dos conflitos, brigas, divergências de opiniões,
crises de ciúmes e atos de egoísmo, cabe, em minha opinião, acentuar outros aspectos que
legitimizam as relações desses amigos e amantes same-sex oriented: o companheirismo, a
amizade, a compreensão e a cumplicidade fazem parte da rotina diária dos moradores da casa
de Fire Island, porque vários deles já perderam ex-amantes e/ou amigos. A preocupação
constante com a limpeza da casa e dos objetos pessoais igualmente traduz a conscientização
da doença e o pavor de transmiti-la. A deterioração não apenas do corpo mas também da
mente é retratada nesse fim de semana. No meio da crise, com lapsos de memória, Enzo
pergunta pelo amante de Clark, falecido meses atrás. Após cuidar de Enzo durante a noite, o
narrador ainda foi capaz de sentir a beleza do dia e apreciar estar vivo. Noah, um de seus
amigos, refere-se a ele como “Superman“; mas Clark não se vê assim. Para ele, o que importa
são “ ... essas conexões com os outros, com o que é humanamente possível fazer.”xi[xi]
Marcelo Secron
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